quarta-feira, 10 de junho de 2015

Ishtar Antares: O retorno da Deusa

Depois de muitos milénios a Deusa está voltando. A sua energia está chegando lentamente, quase sem aviso prévio, mas um dia ela irá transbordar o mundo. O seu fluxo silencioso e subterrâneo está extinguindo lentamente a sede acumulada no coração dos homens sem que ninguém perceba. A sede que nada mais pode saciar. Nem oração, nem meditação, ou exercícios complicados de ioga. Nem a leitura dos livros sagrados de sabedoria eterna. Nem milhares de experiências que o mundo possa oferecer.


Por milénios a Deusa esteve gritando debaixo do calcanhar do mundo patriarcal. Passou tanto tempo que todos se esqueceram se alguma vez ela existiu. O seu pálido reflexo foi visto em algumas vezes nas estatuetas empoeiradas e esquecidas nos depósitos dos museus. Ou, nas gotas das águas cintilantes num arco-íris numa cachoeira na selva amazónica, longe do mundo humano. Ou, nos olhos dos amantes, naqueles momentos fora do tempo após a sua união. Ou, nos movimentos de uma rapariga dançando, quando ninguém a pode vêr.

A falta da suavidade feminina no mundo rígido masculino criou o desequilíbrio que conduziu este mundo à beira da extinção. Agora que o sistema patriarcal está lentamente caindo aos pedaços, uma memória retorna nas rachaduras da matriz. A memória do paraíso que era uma vez, um paraíso que será de novo...

Nos tempos Neolíticos da velha Europa, a adoração aos poderes de cura da Deusa mantiveram a civilização em equilíbrio por centenas de gerações. A Deusa era a fonte de tudo o que sempre foi, uma mãe, uma educadora, um guardiã da vida, portadora dos cíclos da vida e da morte. Nas cavernas sagradas e nos bosques sagrados, rituais íntimos ocorriam como em oferenda à Deusa. Os povos antigos marcavam os ciclos naturais dos equinócios e solstícios com celebrações e festivais de amor sexual, nascimento e renovação espiritual. A iniciação nos mistérios da Deusa geralmente ocorriam numa caverna subterrânea, espaço subterrâneo ou similar, caminhando por um labirinto onde, em seguida, através de um ritual fundiam-se a Deusa e o Deus Cornudo no centro do labirinto. Simbolicamente o labirinto representa o mapa de mundo interior humano e o caminho espiritual, a mandala da alma humana, enquanto que o ritual de fusão entre a Deusa e o Deus representa a junção dos princípios feminino e masculino na psíque humana.

As Sacerdotisas da Deusa eram as guardiãs do tempo. O tempo que está fluindo em espiral, através da troca natural das estações, através dos momentos sagrados de amanhecer e entardecer. A Triplicidade da Deusa reflectida nas fases da lua, mostra-se ela mesma na vida das mulheres como o arquétipo da Donzela, de Mãe, e de Anciã. A Donzela é o símbolo da vida em si mesma, a Mãe é a que dá a vida, a anciã é o símbolo da morte. Assim, a Deusa tripla mostra sensivelmente o ciclo natural da vida e da morte, sendo que a morte é a porta para uma nova vida.

Além disso, as Sacerdotisas da Deusa eram guardiãns da energia da vida. Esta energia da vida que se manifesta de duas maneiras. Primeiro é a energia de fertilidade que traz a nova vida física, que também era, a energia do amor sexual que traz a nova vida espiritual. Nos tempos Neolíticos toda a sociedade era permeada com ambas as energias da vida, portanto, era uma sociedade feliz que conhecia a felicidade que o homem moderno perdeu.

Mas esse paraíso não durou para sempre. No final do período Neolítico, os ferozes guerreiros Kurgan invadiram com os seus cavalos para além da estepe Caucasiana a velha Europa. Eles odiavam a Deusa. Eles odiavam a mulher, destruindo a sua sexualidade com violações brutais. Eles criaram a hierarquia e a sociedade patriarcal como a conhecemos hoje. Eles trouxeram guerras e violência ao qual os pacíficos povos neolíticos, adoradores da Deusa, não sabiam como resistir. Eles foram subjugados, mas a sua crença e fé na Deusa era forte e continuaram-na por milénios. As Sacerdotisas da Deusa estiveram activas na Suméria como naditu, as sacerdotisas do amor que não estavam autorizadas a casar, mas em vez disso, estavam encarregues de trabalhar no templo como terapeutas e iniciadoras na energia da vida sexual. Esta tradição continuou na Assíria e Babilônia onde alcançou os povos semitas. As sacerdotisas estiveram activas entre os judeus como quadesha, e entre os gregos como hierodulai.

A última quebra na energia da Deusa veio do Cristianismo institucional, quando no ano 392, o imperador romano Teodósio proibiu todos os rituais pagãos, e quando monges fanáticos de capuz preto, de olhos vidrados e espumando da boca, apagaram os templos pagãos, demoliram as estátuas, destruiram os bosques sagrados, violaram as sacerdotisas. O símbolo Cristão de um homem sofredor, torturado e colocado numa cruz veio substituir o delicado, sensual e convidativo corpo da Deusa por um longo período de tempo.

Mas agora a Deusa retornou. Nas últimas décadas, um novo impulso das energias femininas estão voltando das profundezas do espaço e está trazendo o equilíbrio de volta ao mundo. Estas novas energias têm provocado o surgimento de muitos novos movimentos espirituais, tais como o movimento hippie na década de sessenta, o renascimento do neopaganismo e o amplo interesse pela espiritualidade. Muitas mulheres têm redescoberto a Deusa dentro de seu ser e novamente começado a trabalhar como sacerdotisas.

A Deusa retorna. Nos seus bosques sagrados a primavera está voltando. As águas das suas fontes regeneradoras estão começando a circular nos cansados corpos humanos e nas almas. Nas cavernas subterrâneas, os rituais dedicados à Deusa estão acontecendo novamente. E eu chamo-o, peregrino no caminho da Luz, para se juntar a ele.


Autor: Ishtar Antares (http://www.aurora2012.net/Articles.html)
Tradução: Rosa de Vénus (arosadevenus@gmail.com)

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